Já disse nesse espaço, por várias vezes, que pertenço à RME de BH, desde 1976. Entrei por concurso, como professora do ensino fundamental e no ano seguinte fui "Enquadrada" como Supervisora Pedagógica. Estive nessa função até 1999 e no período de 91 a 94 fui diretora da escola, cargo ocupado por eleição direta.
Portanto, tenho uma longa experiência como funcionária da educação municipal; passei por várias administrações e, consequentemente, adaptei-me às diversas políticas educacionais da "RME".
Dos meus primeiros anos de professora municipal, até os dias atuais, lidei com alunos oriundos das famílias de baixa renda, moradores da periferia da cidade; alguns contando com o total apoio familiar, outros nem tanto e outros mais, de jeito nenhum!
Sendo assim, em qualquer época, de bonança ou de crise, de bolsa família ou não, entra ano, sai ano e as turmas apresentam um perfil econômico, social e psicológico, muito semelhante.
Grosso modo, uma turma constitui-se de mais ou menos 10% de alunos de baixo rendimento escolar, outros 10% com alto rendimento e um grupo intermediário, em torno de 80% deles, de rendimento regular, esperado.
Nesse perfil, destacam-se alunos muito motivados a estudar, alunos apáticos em relação aos estudos e alunos dependentes de estímulos familiares e da própria escola, para alcançar um bom rendimento escolar. Geralmente alcançam, quando há interesse real tanto de professores quanto de pais.
No grupo dos alunos apáticos, percebemos diversos problemas extra-pedagógicos que interferem na sua qualidade de estudo e de rendimento; vão desde queixas constantes de "dor de dente; dor de barriga; sonolência; apatia e/ou hiperatividade, a abandono familiar, uso de droga, violências várias,etc
Estou realçando tudo isso para dizer que nós professores trabalhamos sob as condições citadas acima e isso nos dá crédito, pois detemos conhecimentos da rotina escolar do aluno e do acompanhamento que recebem de seus familiares, que outros profissionais da educação, mas fora da sala de aula não detêm.
No entanto, nada disso importa aos "políticos de plantão", quando resolvem fazer mais uma "Reforma do Ensino".
Há 15 anos, a "Escola Plural" chegou para nós da "Rede"na forma de " pacote-que- nivelava- todas- as- escolas-municipais-por-baixo". O ensino fundamental (1ª a 8ª série) enquadrou-se primeiro à tal fórmula e o ensino médio (hoje de responsabilidade do Estado) sofreu depois e continua sofrendo, as consequências desse projeto de escola maluco e irresponsável.
Até 1994, todas as escolas municipais contavam com diversos serviços extra-pedagógicos, oferecidos aos alunos que deles necessitavam.
Cada escola, por exemplo, contava com o "professor recuperador" e este trabalhava, extra-turno, as defasagens de aprendizagens daqueles alunos que evidenciavam um ritmo de aprendizagem diferenciado, para menos, dos demais. Pois bem, esse serviço foi simplesmente desmontado, com o advento da "Escola Plural".
Hoje, 15 anos depois, a nova administração da Prefeitura oferece com "pompas e circunstâncias" e, mais uma vez, sem ouvir os professores, o serviço de "Reforço Escolar"...
Na escola onde trabalho , esse serviço acontece no mesmo turno de estudo do aluno. Ou seja, o aluno vai à escola para assistir aulas de "Língua Portuguesa, Matemática, Geografia, História, Ciências, Artes e Educação Física". E é deslocado da sua turma de origem, para fazer "aulas de reforço escolar"! Pode, uma coisa dessas?!
"É A TREVA", como diz a personagem adolescente de uma novela atual...
Se não, vejamos. Sou professora de uma turma de 25 alunos do final do 2º Ciclo, (antiga 5ª série). Desse grupo, 10 alunos apresentam sérias defasagens de conhecimentos em Língua Portuguesa e em Matemática, para ficar nessas duas disciplinas de ensino. A partir da dinâmica de "Reforço Escolar" em curso, não sei mais o que fazer quanto ao ensino a ser ministrado a esses alunos. Eles pertencem ao mesmo tempo à minha turma e ao grupo dos alunos em reforço escolar. O trabalho que está sendo desenvolvido com eles pela professora recuperadora (orientada e acompanhada por profissionais ditos "Acompanhantes Pedagógicos" da escola, vindos da Secretaria Municipal de Ensino), não guarda nenhuma relação com o que tenho desenvolvido com os mesmos alunos, quando estão comigo em sala; sequer conheço a proposta pedagógica desse reforço escolar. E tem mais, sou a professora referencial da turma, portanto a responsável pela aprendizagem e consequente promoção do grupo ao 3º Ciclo do ano que vem(6ª, 7ª e 8ª séries).
O que fazer? A sala de aula virou um entra-e-sai de aluno, não importa que conteúdo eu esteja desenvolvendo com a turma. Os alunos do "reforço" estão desorientados, não sabem a quem seguir, se a mim ou à professora de reforço. E eu não sei como esses alunos serão avaliados durante e ao final do ano letivo, pois se vão para a aula de reforço, perdem o que está acontecendo em sala de aula com o restante do grupo; se permanecem na sala, perdem a oportunidade do "reforço escolar".
O óbvio, para mim, seria fazer a aula de "reforço escolar" extra-turno, mas quem convence à cúpula pensante, disso?!
quarta-feira, 6 de maio de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Caiu a Ficha
Hoje pela manhã, estava eu à espera do 2º ônibus que me deixaria na escola, quando chamou-me a atenção uma enorme fila, de dobrar quarteirão, em frente a um órgão da PBH ,de atendimento ao público do bairro onde moro. Era a fila do "Minha Casa, Minha Vida"; programa habitacional do governo federal, destinado, dentre outros motivos menos nobres, ao atendimento à demanda pela casa própria da população carente, aquela que recebe até três salários mínimos.
Enquanto o ônibus não vinha, às 6h30min da manhã, pus-me a pensar:
-Quem são as pessoas da fila? Certamente as que recebem até 3 salários mínimos e que terão direito a uma casa lá "onde o Judas perdeu as Botas" e que pagarão uma prestação por dez anos, de R$50,00. Essa é a promessa do governo. Desse público alvo, pensei eu, faço parte...
Após 14 anos de efetivo trabalho em sala de aula, no ensino fundamental, (3º Ano do 2º Ciclo) dois cursos superiores, (Pedagogia e Letras) e uma especialização ( Leitura e Produção de Textos) recebo menos que três salários mínimos. Portanto, posso me inscrever no programa!
Provavelmente, alguém pode pensar assim: é, mas professor só trabalha meio horário, de 2ª a 6ª feira e com vários recessos durante o ano!
É verdade, mas para por aí.
Os pouquíssimos professores que trabalham em meio horário, e também todos aqueles que têm jornada dupla e/ou tripla , levam serviço para casa.
Sou exemplo disso. Passo praticamente todas as minhas tardes e finais de semanas, feriados e recessos corrigindo, planejando, organizando, registrando os trabalhos realizados ou a serem realizados por meus alunos; e, inclusa nesse pacote está a preocupação com o desempenho pedagógico e/ou com o comportamento social/emocional deste ou daquele aluno.
Um professor atualizado, dizem os sábios, deve ser leitor voraz, consumidor de teatro, cinema, exposições de arte, ativista político e social, competente ao ministrar suas aulas! Ah! Deve também cuidar para que as suas aulas sejam criativas, lúdicas, dinâmicas, interessantes, tecnológicas (onde já se viu um professor do século XXI ainda utilizar-se do cuspe-quadro-giz para dar aulas?!
Pois bem, eu estou me candidatando a uma casa de R$50,00 a prestação! Vou concorrer com a minha ajudante doméstica e eu só a tenho, porque conto com o salário do meu marido.
Que país é esse!? Ehein Cazuza? Que Deus o tenha.
Enquanto o ônibus não vinha, às 6h30min da manhã, pus-me a pensar:
-Quem são as pessoas da fila? Certamente as que recebem até 3 salários mínimos e que terão direito a uma casa lá "onde o Judas perdeu as Botas" e que pagarão uma prestação por dez anos, de R$50,00. Essa é a promessa do governo. Desse público alvo, pensei eu, faço parte...
Após 14 anos de efetivo trabalho em sala de aula, no ensino fundamental, (3º Ano do 2º Ciclo) dois cursos superiores, (Pedagogia e Letras) e uma especialização ( Leitura e Produção de Textos) recebo menos que três salários mínimos. Portanto, posso me inscrever no programa!
Provavelmente, alguém pode pensar assim: é, mas professor só trabalha meio horário, de 2ª a 6ª feira e com vários recessos durante o ano!
É verdade, mas para por aí.
Os pouquíssimos professores que trabalham em meio horário, e também todos aqueles que têm jornada dupla e/ou tripla , levam serviço para casa.
Sou exemplo disso. Passo praticamente todas as minhas tardes e finais de semanas, feriados e recessos corrigindo, planejando, organizando, registrando os trabalhos realizados ou a serem realizados por meus alunos; e, inclusa nesse pacote está a preocupação com o desempenho pedagógico e/ou com o comportamento social/emocional deste ou daquele aluno.
Um professor atualizado, dizem os sábios, deve ser leitor voraz, consumidor de teatro, cinema, exposições de arte, ativista político e social, competente ao ministrar suas aulas! Ah! Deve também cuidar para que as suas aulas sejam criativas, lúdicas, dinâmicas, interessantes, tecnológicas (onde já se viu um professor do século XXI ainda utilizar-se do cuspe-quadro-giz para dar aulas?!
Pois bem, eu estou me candidatando a uma casa de R$50,00 a prestação! Vou concorrer com a minha ajudante doméstica e eu só a tenho, porque conto com o salário do meu marido.
Que país é esse!? Ehein Cazuza? Que Deus o tenha.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Cotidiano
"Todo dia ela faz tudo sempre igual/ me sacode as seis horas da manhã"... já dizia, ou melhor, já cantava/canta Chico Buarque de Holanda. Pois é, escola também é assim: rotineira, previsível, cotidiana, igual há séculos!Ou seja,todos os dias acontecem fatos previsíveis: chegar ao trabalho, receber os alunos, ocupar o espaço sala de aula, seguir o horário das aulas, dar sequência ao ensino anterior... Mas a rotina, o previsível param por aí. Isto porque a escola é feita de uma "rotina dinâmica", se é que se pode dizer assim, forjada no resultado da relação entre pessoas . Os resultados pedagógicos de tudo o que foi planejado e definido em metas a serem alcançadas, dependem do subjetivo, do estado emocinal, motivacional e orgânico de cada um dos sujeitos envolvidos no processo.
Às vezes o professor está super-motivado a desenvolver determinado trabalho com os alunos e estes, por vários motivos, não se empolgam, não se mobilizam e/ou vice-versa.
Então, o jeito, no caso do professor, é valer-se do currículo, ou do livro didático, ou de algum outro recurso que a escola tenha. Nada disso, porém, é garantia de que o transcurso e o final daquele dia escolar será de satisfação, tanto de professores, quanto de alunos.Lidamos com o imponderável! É comum estarmos totalmente motivados e envolvidos com determinado projeto e por motivos não previstos ele, de repente, desanda, vai por água abaixo, deixando um gosto insuportável de frustração na alma de todos.
Assim somos nós, professores, alunos e todo o ambiente que permeia o ato de ensinar/aprender: voláteis, imprevisíveis, inconstantes, inseguros, incompletos...Humanos, enfim.
Às vezes o professor está super-motivado a desenvolver determinado trabalho com os alunos e estes, por vários motivos, não se empolgam, não se mobilizam e/ou vice-versa.
Então, o jeito, no caso do professor, é valer-se do currículo, ou do livro didático, ou de algum outro recurso que a escola tenha. Nada disso, porém, é garantia de que o transcurso e o final daquele dia escolar será de satisfação, tanto de professores, quanto de alunos.Lidamos com o imponderável! É comum estarmos totalmente motivados e envolvidos com determinado projeto e por motivos não previstos ele, de repente, desanda, vai por água abaixo, deixando um gosto insuportável de frustração na alma de todos.
Assim somos nós, professores, alunos e todo o ambiente que permeia o ato de ensinar/aprender: voláteis, imprevisíveis, inconstantes, inseguros, incompletos...Humanos, enfim.
sábado, 28 de março de 2009
Gênero textual, poesia.
Lá pelos idos de 1983, uma grande amiga e eu, então supervisoras pedagógicas em escola municipal, publicamos um trabalho na "Revista AMAE EDUCANDO" cujo título fora o seguinte: "Drummond e Poesia para Criança".
Naquela época, trabalhávamos com crianças de 9/10 anos interessadíssimas pelos textos literários, dentre eles especialmente a poesia. O comum, então, nessa faixa etária, era que se trabalhasse com os poemas de Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles e até Olavo Bilac, mas Drummond, poesia e criança parecia não se encaixar muito bem. Conversando sobre isso, resolvemos apresentar Drummond aos nossos alunos a partir do poema "Infância". Desenvolvemos, para tal um plano de aula, que passo a relatar, fazendo, no entanto, algumas adaptações às concepções pedagógicas atuais:
"Planejamento de Aula de Poesia (Hoje, sequência didática)
Módulo: Língua Portuguesa
Gênero textual: Poesia
Tema: Infância
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Objetivos:
-Entrar em contato com o texto de Drummond a partir do poema "Infância".
-Identificar o "eu lírico" do poema e estabelecer relações entre a temática abordada e a vida de cada leitor.
-Citar trechos do poema que produziram sentimentos ao serem lidos, explicitando-os.
-Pesquisar sobre Drummond e listar outros poemas de interesse da turma.
Conteúdos
- Poema, um gênero textual.
-Carlos Drummond de Andrade, grande escritor mineiro de Poemas e Crônicas, cujo público alvo principal é o adulto.
-Algumas características do poema em estudo.
-Pesquisa sobre Drummond e de outros poemas seus adequados à faixa etária em questão.
Material necessário
Cópias do poema em estudo.
Recursos adequados (livros, enciclopédias, Internet) à pesquisa sobre Drummond.
Desenvolvimento
-1ª etapa
Inicie a atividade com uma roda de conversa, apresentando aos alunos o autor:
_Vocês conhecem ou já ouviram falar a respeito de Carlos Drummond de Andrade? Já leram algo sobre ele?
_Carlos Drummond foi e permanece sendo um grande poeta brasileiro. Nasceu em Itabira, Minas Gerais, mas viveu bastante tempo no Rio de Janeiro.
Foi escritor consagrado de Crônicas, Contos e Poemas; publicou muitos livros. Nasceu no dia 31 de outubro de 1902 e morreu no ano de 1987. Pois bem, hoje vocês conhecerão um poema escrito por ele.
-2ª etapa
Resolução de dificuldades (estudo do vocabulário)
Comente com o aluno:
_No poema a ser lido, vocês encontrarão palavras e/ou expressões, cujos significados estudaremos primeiramente.
Escreva no quadro (ou use algum outro recurso), as expressões: cosendo, Robinson Crusoé, meio-dia branco de luz, senzala e campeava, por exemplo.
Converse com os alunos, incentive-os a dizerem o que sabem sobre cada uma das expressões destacadas:
cosendo (coser) = costurando (costurar)
Robinson Crusoé = personagem de uma história infantil
meio-dia branco de luz = dia muito claro, de luz intensa
senzala = casa onde moravam os escravos
campeava = andava a cavalo pelo campo cuidando da fazenda
3ª etapa
Apresentação do poema à turma
Converse com os alunos e pergunte-lhes:
_ Como é que cada um de vocês passa o dia?
_E seu pais o que fazem durante o dia? Como eles são? Calmos, tranquilos, ou não?
_ Pois bem, o poema que eu trouxe para vocês fala sobre a vida de Drummond criança.
_Como terá sido a sua vida de menino de 1910?
_Vocês gostariam de saber?
4ª etapa
Primeira leitura do poema
Da professora para os alunos, que acompanham-na a partir das cópias distribuídas.
Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala _ e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
_Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Por ser esta a leitura/modelo, deverá ser feita:
-com expressão e ritmo próprios;
-com modulação da voz conforme a musicalidade dos versos;
-com naturalidade, sem afetação ou declamação.
Segunda leitura do poema
Professora e alunos leem juntos, com o mesmo cuidado da leitura anterior.
5ª etapa
Debate e/ou conversa sobre a temática do poema e sobre as impressões causadas nos leitores:
_Estimular os alunos a relatarem suas primeiras percepções a respeito do poema.
_Fazer questionamentos, tais como: quais fatos da memória afetiva do autor estão presentes no poema; de que sentimentos ele se lembra; que expressões são usadas para descrever o dia; como ele se refere à preta velha; o que ela representava para ele; como o autor nos apresenta seus pais; a que conclusão o autor chega ao final do poema; por quê?
6ª etapa
Leitura coletiva do poema.
AVALIAÇÃO:
Divida a turma em grupos para que cada aluno possa compartilhar, nos pequenos grupos, as emoções vividas e percebidas com a leitura do poema.
Expressar esses sentimentos a partir das seguintes atividades:
-colar o poema no caderno de "Língua Portuguesa";
-copiar o verso ou a estrofe que mais chamou-lhes a atenção;
-ilustrar o poema;
-fazer um coro falado ou imaginar uma forma de o poema ser apresentado à turma;
-pesquisar sobre Drummond a apresentar aos colegas o resultado da pesquisa.
-coletar outros poemas de Drummond para serem lidos pela turma.
Obs. À época, os alunos de uma das turmas que trabalharam com o poema de Drummond, produziram o seguinte texto:
"Homenagem à Carlos Drummond de Andrade
Em 1902, nasce em Itabira, Minas Gerais, uma criança igual às outras, para mais tarde tornar-se um homem especial, um grande poeta, você: Carlos Drummond de Andrade.
Carlos Drummond, você enriquece a literatura brasileira, tornando-a conhecida em vários países.
O Brasil inteiro reconhece seu talento e lhe presta merecidas homenagens no seu octogésimo aniversário.
Continue elevando sempre o nome do Brasil.
Que Deus lhe dê força e saúde para continuar aproveitando a sua sensibilidade e sua capacidade de observar coisas comuns e torná-las especiais em forma de poemas, crônicas ou contos.
Apesar de seus oitenta anos, você continua com a cabeça jovem e atuante.
A você, o nosso respeito e gratidão por tanto talento acumulado.
Você é motivo de orgulho de todos nós mineiros.
Por tudo, muito lhe agradecemos".
Revista AMAE EDUCANDO, agosto de 1983,
nº156, ano XVI, p.5-7.
Bons tempos aqueles! Que saudade!
Naquela época, trabalhávamos com crianças de 9/10 anos interessadíssimas pelos textos literários, dentre eles especialmente a poesia. O comum, então, nessa faixa etária, era que se trabalhasse com os poemas de Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles e até Olavo Bilac, mas Drummond, poesia e criança parecia não se encaixar muito bem. Conversando sobre isso, resolvemos apresentar Drummond aos nossos alunos a partir do poema "Infância". Desenvolvemos, para tal um plano de aula, que passo a relatar, fazendo, no entanto, algumas adaptações às concepções pedagógicas atuais:
"Planejamento de Aula de Poesia (Hoje, sequência didática)
Módulo: Língua Portuguesa
Gênero textual: Poesia
Tema: Infância
Autor: Carlos Drummond de Andrade
Objetivos:
-Entrar em contato com o texto de Drummond a partir do poema "Infância".
-Identificar o "eu lírico" do poema e estabelecer relações entre a temática abordada e a vida de cada leitor.
-Citar trechos do poema que produziram sentimentos ao serem lidos, explicitando-os.
-Pesquisar sobre Drummond e listar outros poemas de interesse da turma.
Conteúdos
- Poema, um gênero textual.
-Carlos Drummond de Andrade, grande escritor mineiro de Poemas e Crônicas, cujo público alvo principal é o adulto.
-Algumas características do poema em estudo.
-Pesquisa sobre Drummond e de outros poemas seus adequados à faixa etária em questão.
Material necessário
Cópias do poema em estudo.
Recursos adequados (livros, enciclopédias, Internet) à pesquisa sobre Drummond.
Desenvolvimento
-1ª etapa
Inicie a atividade com uma roda de conversa, apresentando aos alunos o autor:
_Vocês conhecem ou já ouviram falar a respeito de Carlos Drummond de Andrade? Já leram algo sobre ele?
_Carlos Drummond foi e permanece sendo um grande poeta brasileiro. Nasceu em Itabira, Minas Gerais, mas viveu bastante tempo no Rio de Janeiro.
Foi escritor consagrado de Crônicas, Contos e Poemas; publicou muitos livros. Nasceu no dia 31 de outubro de 1902 e morreu no ano de 1987. Pois bem, hoje vocês conhecerão um poema escrito por ele.
-2ª etapa
Resolução de dificuldades (estudo do vocabulário)
Comente com o aluno:
_No poema a ser lido, vocês encontrarão palavras e/ou expressões, cujos significados estudaremos primeiramente.
Escreva no quadro (ou use algum outro recurso), as expressões: cosendo, Robinson Crusoé, meio-dia branco de luz, senzala e campeava, por exemplo.
Converse com os alunos, incentive-os a dizerem o que sabem sobre cada uma das expressões destacadas:
cosendo (coser) = costurando (costurar)
Robinson Crusoé = personagem de uma história infantil
meio-dia branco de luz = dia muito claro, de luz intensa
senzala = casa onde moravam os escravos
campeava = andava a cavalo pelo campo cuidando da fazenda
3ª etapa
Apresentação do poema à turma
Converse com os alunos e pergunte-lhes:
_ Como é que cada um de vocês passa o dia?
_E seu pais o que fazem durante o dia? Como eles são? Calmos, tranquilos, ou não?
_ Pois bem, o poema que eu trouxe para vocês fala sobre a vida de Drummond criança.
_Como terá sido a sua vida de menino de 1910?
_Vocês gostariam de saber?
4ª etapa
Primeira leitura do poema
Da professora para os alunos, que acompanham-na a partir das cópias distribuídas.
Infância
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé.
Comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala _ e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
_Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Por ser esta a leitura/modelo, deverá ser feita:
-com expressão e ritmo próprios;
-com modulação da voz conforme a musicalidade dos versos;
-com naturalidade, sem afetação ou declamação.
Segunda leitura do poema
Professora e alunos leem juntos, com o mesmo cuidado da leitura anterior.
5ª etapa
Debate e/ou conversa sobre a temática do poema e sobre as impressões causadas nos leitores:
_Estimular os alunos a relatarem suas primeiras percepções a respeito do poema.
_Fazer questionamentos, tais como: quais fatos da memória afetiva do autor estão presentes no poema; de que sentimentos ele se lembra; que expressões são usadas para descrever o dia; como ele se refere à preta velha; o que ela representava para ele; como o autor nos apresenta seus pais; a que conclusão o autor chega ao final do poema; por quê?
6ª etapa
Leitura coletiva do poema.
AVALIAÇÃO:
Divida a turma em grupos para que cada aluno possa compartilhar, nos pequenos grupos, as emoções vividas e percebidas com a leitura do poema.
Expressar esses sentimentos a partir das seguintes atividades:
-colar o poema no caderno de "Língua Portuguesa";
-copiar o verso ou a estrofe que mais chamou-lhes a atenção;
-ilustrar o poema;
-fazer um coro falado ou imaginar uma forma de o poema ser apresentado à turma;
-pesquisar sobre Drummond a apresentar aos colegas o resultado da pesquisa.
-coletar outros poemas de Drummond para serem lidos pela turma.
Obs. À época, os alunos de uma das turmas que trabalharam com o poema de Drummond, produziram o seguinte texto:
"Homenagem à Carlos Drummond de Andrade
Em 1902, nasce em Itabira, Minas Gerais, uma criança igual às outras, para mais tarde tornar-se um homem especial, um grande poeta, você: Carlos Drummond de Andrade.
Carlos Drummond, você enriquece a literatura brasileira, tornando-a conhecida em vários países.
O Brasil inteiro reconhece seu talento e lhe presta merecidas homenagens no seu octogésimo aniversário.
Continue elevando sempre o nome do Brasil.
Que Deus lhe dê força e saúde para continuar aproveitando a sua sensibilidade e sua capacidade de observar coisas comuns e torná-las especiais em forma de poemas, crônicas ou contos.
Apesar de seus oitenta anos, você continua com a cabeça jovem e atuante.
A você, o nosso respeito e gratidão por tanto talento acumulado.
Você é motivo de orgulho de todos nós mineiros.
Por tudo, muito lhe agradecemos".
Revista AMAE EDUCANDO, agosto de 1983,
nº156, ano XVI, p.5-7.
Bons tempos aqueles! Que saudade!
sexta-feira, 20 de março de 2009
A Senha do Mundo
Distinção
O Pai se escreve sempre com P grande
em letras de respeito e de tremor
se é Pai da gente. E Mãe, com M grande.
O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.
Com ela, sim, me entendo bem melhor:
Mãe é muito mais fácil de enganar.
(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)
Andrade, Carlos Drummond de,
A Senha do Mundo, Rio de Janeiro,
Coleção Verso na Prosa
Prosa no Verso, Ed. Record, 1997,p. 38
O Pai se escreve sempre com P grande
em letras de respeito e de tremor
se é Pai da gente. E Mãe, com M grande.
O Pai é imenso. A Mãe, pouco menor.
Com ela, sim, me entendo bem melhor:
Mãe é muito mais fácil de enganar.
(Razão, eu sei, de mais aberto amor.)
Andrade, Carlos Drummond de,
A Senha do Mundo, Rio de Janeiro,
Coleção Verso na Prosa
Prosa no Verso, Ed. Record, 1997,p. 38
quinta-feira, 12 de março de 2009
A Palavra Mágica
Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Professor
O professor disserta
sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Não.
O professor baixa a voz
com medo de acordá-lo.
Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987
A Senha do Mundo - Rio de Janeiro: Record
1997. 9Verso na prosa-prosa no verso)
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.
Professor
O professor disserta
sobre ponto difícil do programa.
Um aluno dorme,
cansado das canseiras desta vida.
O professor vai sacudi-lo?
Não.
O professor baixa a voz
com medo de acordá-lo.
Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987
A Senha do Mundo - Rio de Janeiro: Record
1997. 9Verso na prosa-prosa no verso)
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Dar um Tempo
Hoje em dia ouvimos com naturalidade expressões como: "estou dando um tempo; vou dar um tempo; estamos dando um tempo", principalmente entre namorados, que de repente necessitam parar para refletir sobre o relacionamento e, mais pra frente, romper de vez ou então retomar, com mais força, quem sabe, com mais vigor, entusiasmo e paixão, aquilo que parecia morrer, acabar, esvair.
Sinto-me assim com minha profissão: quero continuar, mas não sei se devo. O entusiasmo e o gosto pelo ofício ainda estão presentes; vibro quando alcanço objetivos e metas estabelecidos, quando consigo organizar um projeto de trabalho que envolva não só minha turma, mas o turno, a escola e principalmente quando meu aluno percebe, feliz, que aprendeu algo de novo que o coloca em outro patamar do conhecimento.
Como nem tudo são flores e as decepções e frustrações em educação às vezes são maiores que os sucessos, até o momento estou no seguinte pé: já identifico algumas características dos meus novos alunos; fiz uma primeira reunião com os pais deles; estabelecemos metas de trabalho pedagógico para o ano em curso; combinamos nos ajudarmos mutuamente; estabelecemos regras de conduta em sala de aula; organizamos os horários das aulas; os livros didáticos que serão utilizados. Após os testes de conhecimentos em Língua Portuguesa e em Matemática, listei e organizei um gráfico das habilidades já consolidadas por cada aluno e aquelas que precisam ser retomadas não só com a turma, mas também individualmente com alguns alunos que apresentaram maiores defasagens de conhecimentos. Estou gostando deles, estou entusiasmada e louca para colocar em prática tudo o que foi planejado para esse ano e para essa turma.
Mas, tenho direito, devido ao meu tempo de serviço como professora (14 anos) a tirar "Férias-prêmio". Ficarei 180 dias afastada da escola e, logicamente, longe da turma. Tomei essa decisão porque ando pensando em pedir exoneração do cargo ao final desse período de férias. Porém, estou confusa. Não sei se quero mesmo abandonar a minha profissão. Então... Vou "dar um tempo", mas com pena de interromper o trabalho já iniciado com a turma de 2009.
Sinto-me assim com minha profissão: quero continuar, mas não sei se devo. O entusiasmo e o gosto pelo ofício ainda estão presentes; vibro quando alcanço objetivos e metas estabelecidos, quando consigo organizar um projeto de trabalho que envolva não só minha turma, mas o turno, a escola e principalmente quando meu aluno percebe, feliz, que aprendeu algo de novo que o coloca em outro patamar do conhecimento.
Como nem tudo são flores e as decepções e frustrações em educação às vezes são maiores que os sucessos, até o momento estou no seguinte pé: já identifico algumas características dos meus novos alunos; fiz uma primeira reunião com os pais deles; estabelecemos metas de trabalho pedagógico para o ano em curso; combinamos nos ajudarmos mutuamente; estabelecemos regras de conduta em sala de aula; organizamos os horários das aulas; os livros didáticos que serão utilizados. Após os testes de conhecimentos em Língua Portuguesa e em Matemática, listei e organizei um gráfico das habilidades já consolidadas por cada aluno e aquelas que precisam ser retomadas não só com a turma, mas também individualmente com alguns alunos que apresentaram maiores defasagens de conhecimentos. Estou gostando deles, estou entusiasmada e louca para colocar em prática tudo o que foi planejado para esse ano e para essa turma.
Mas, tenho direito, devido ao meu tempo de serviço como professora (14 anos) a tirar "Férias-prêmio". Ficarei 180 dias afastada da escola e, logicamente, longe da turma. Tomei essa decisão porque ando pensando em pedir exoneração do cargo ao final desse período de férias. Porém, estou confusa. Não sei se quero mesmo abandonar a minha profissão. Então... Vou "dar um tempo", mas com pena de interromper o trabalho já iniciado com a turma de 2009.
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