IMPULSO
Olá! Semana passada vivenciei algo que me fez bem porque me transportou para quando eu era ativa na Educação.
Naquela época tive a oportunidade , várias vezes, de me dirigir a grande número de pessoas: alunos, professores, pais dos alunos, pela natureza da minha função. Era a Coordenadora de Ensino da Escola onde trabalhava e me dirigia a eles em situações diversas, tais como: reuniões, palestras ou para algum informe.
Agora, aposentada, não tenho mais essa oportunidade. No entanto, retomei meus tempos de professora ao proferir uma palestra no Centro Esportivo do bairro onde moro, para os frequentadores deste, sobre a doença Diabetes.
Isto se deu em função de experiência pessoal e particular minha, vivida nestes últimos três anos, ao acompanhar meu marido, portador de diabetes há mais de trinta anos até o seu momento final.
Meu marido veio a morrer da doença no dia 30/11/23, num sofrimento atroz, embora fizesse de tudo para, se não curá-la, pelo menos não sofrer com cegueira, amputação de membros, etc, comorbidades possíveis a quem sofre de Diabetes.
Agora, aqui estou eu, sozinha, sem meu companheiro e triste ainda, porque um relacionamento de quase cinquenta anos, molda aqueles que participam dele. Um vira o outro, o outro vira o um e ambos adquirem outra identidade, a do casal. No nosso caso, eu era e ainda sou " a Angela do Armando" e ele, quando vivo, era o "Armando da Angela".
Como virar outra pessoa, na velhice, como criar nova identidade quando a vida em mim também se esvai? Não sei. Sofro por isso. Sofro com isso.
Estou ativa, tenho vigor, vontade de fazer coisas, mas o modelo que me coube até então, está tão entranhado em mim que não consigo me desvencilhar dele. Viajar, conhecer outras pessoas, aprender novas coisas, adquirir novos hábitos, sonhar novos sonhos, seriam factíveis caso eu estivesse disposta e motivada , mas não estou.
Acho tudo desinteressante. Desconfio que meu destino é me acabar só, me alimentando de lembranças e de hábitos adquiridos.
Gosto de estudar. No impulso, sem pensar, sem avaliar nada mais que atender ao meu desejo imediato, fiz minha matrícula no curso de jornalismo, a partir de propaganda vista no celular.
Sem pensar duas vezes fiz a matrícula preenchendo todos os meus dados via celular mesmo. Paguei a inscrição que equivalia ao valor de cada mensalidade. Foi a primeira delas. Curso de quatro anos, ministrado a noite. Escolhi a modalidade presencial, pois o meu objetivo oculto era, a partir do curso, conhecer pessoas, arranjar motivos para estudos, leituras, pesquisas, sair de casa, preencher minha angústia, de situações novas e interessantes.
Só que, ao avaliar a forma de como sairia de casa para assistir às aulas, deveria ter pensado nisso antes de me matricular, percebi que pagaria pelo transporte, ir e vir da faculdade, mais do que o valor da mensalidade do próprio curso! Inviável! Sem falar que chegaria em casa, no dia seguinte.
Sim, a faculdade situa-se no centro da cidade e eu moro na periferia, a quarenta minutos do que seria o meu local de estudo. Desisti e agora estou correndo atrás para ver se consigo o reembolso do que paguei no ato da matrícula.
Assim estou eu. Querendo descobrir o que será de minha vida, enquanto viva eu estiver.
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