sábado, 28 de abril de 2012
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Minha Tia e Professora
Fui alfabetizada por minha tia, irmã de meu pai, na década de 60. Era uma professora intuitiva: animada, criativa, segura do método de alfabetizar, alegre, responsável e feliz, muito feliz em sala de aula.
Lembro-me da Cartilha "Lili, Lalau e o Lobo". Lembro-me dos Contos Infantis: "O Patinho Feio", "Cinderela", "Soldadinhos de Chumbo" e tantos outros.
Tornei-me adulta e professora. Foi com minha tia, na escola onde ela trabalhava, que entrei pela primeira vez numa sala de aula, agora eu também, professora!
Trilhei outros caminhos na Educação; tornei-me Supervisora Pedagógica, Diretora e novamente Professora, meu cargo atual.
À época, foi com grande surpresa que recebi a notícia de que minha tia iria se aposentar. Tive pena dela e dos alunos... Como, tia! Você vai parar de trabalhar? Deixar de fazer algo de que você gosta tanto e faz tão bem... E ele calmamente respondeu-me:
_ Já não tenho mais tanta energia e não consigo mais interagir com meus alunos... Meu tempo passou.
Pois é! Meu tempo passou...
Essa foi mais uma das tantas lições que aprendi com ela, que soube parar no momento certo.
Eu também vou parar e vou parar antes que a minha energia e a minha saúde acabem de vez. Chegou a hora e o momento é agora. Deixo tudo: alegria, entusiasmo, vibração, realização pessoal e profissional, mas e sobretudo deixo a convicção de que um dia a educação brasileira terá a sua própria identidade e uma "cara" que reflita a alma dos brasileiros. Ou será esse mais um um ledo engano?
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Ser professora
Ser professora nos dias atuais é estar sempre em crise de identidade. Que profissional sou eu? Tenho todas as competências para lidar com o aluno que me diz na "lata" que só vai à escola porque a família o obriga?
O professor tem que ser competente, dominar o conteúdo que vai lecionar, saber "ganhar" o aluno para a aula que será ministrada, mas como fazer isso? O que fazer com o aluno de 11/12 anos que olha pra você e lhe diz na cara que não vai fazer a atividade proposta; que não trouxe, pela enésima vez, o material de estudo; que não fez o "Para Casa" porque se esqueceu de fazer...
Como dar continuidade ao ensino de Matemática para o aluno do 6º ano que sequer domina os fatos fundamentais das quatro operações básicas. Como trabalhar os números racionais, as medidas, os gráficos e as tabelas, a geometria, o cálculo do perímetro e da área se o aluno não reconhece quantidades além das centenas? Como trabalhar a organização textual, a escrita coerente e coesa, com um padrão semântico e ortográfico razoável se o aluno, ainda na fase da silabação, jura de pés juntos pra você que já sabe ler e escrever e que não precisa estudar mais?
Como desenvolver os conceitos geográficos, históricos e científicos com o aluno que lhe faz se sentir transparente em sala de aula, que não lhe dá a chance de introduzir os assuntos a serem estudados? Como fazer uma aula dialogada com o aluno que não dá a mínima para o tema em discussão, qualquer que seja ele? E a leitura? Pesquisa recente confirma que o brasileiro de qualquer nível social lê pouco, quando muito, dois livros por ano... O que fazer? Ler para o aluno, ele não ouve. Ler com o aluno, ele lhe deixa lendo sozinha. Ler coletivamente, metade lê e a outra metade voa, não participa. Incentivá-los a ler individualmente é pregar no deserto... O que fazer? Como sair dessa inércia?
quarta-feira, 14 de março de 2012
Heterogeneidade
De repente virou moda a formação de turmas heterogêneas. Afirmam os que defendem essa ideia que numa turma heterogênea o aluno mais forte pode ajudar àquele mais fraco. Ledo engano. O mais fraco sabe que é mais fraco e o mais forte sabe que é mais forte. Um não tem paciência, nem solidariedade para compreender a situação do outro e ajudá-lo ou ser ajudado.
Na prática sobra para o professor descascar esse abacaxi. Volta-se aos primórdios da educação brasileira onde coexistiam numa mesma classe e sob o comando de uma única professora várias séries, ou vários grupos de alunos; tão diferenciados em seus níveis de conhecimento que à professora só restava agrupá-los, na classe, e planejar aulas diferentes para atender às necessidades dos diferentes grupos.
Hoje, vejo-me na mesma situação da professorinha dos anos 30, do século passado. No meu grupo atual de 29 alunos do 6º ano do ensino fundamental, um deles é analfabeto, metade da turma está semi alfabetizada e o restante distribui-se entre os níveis de aprendizagens que vão do 3º ao 6º ano. Somente dois ou três alunos estão prontos para para os estudos específicos do 6º ano de escolarização formal. Os recursos didáticos que tenho à minha disposição atendem somente aos alunos que estão prontos para cursar o 6º ano; no entanto, todos os dias em qualquer das aulas a serem dadas preciso voltar a conteúdos que já deveriam estar consolidados na bagagem de aprendizagens dos alunos. Consequência disso: a aula não rende, pois muito dos conteúdos sequer foram apresentados aos alunos nos seus anos anteriores de estudo.
É comum na turma o texto ilegível, a caligrafia misturada contendo letras maiúsculas no meio da palavra, por exemplo. Na Matemática, o não automatismo dos fatos fundamentais e dos conceitos básicos das quatro operações impedem qualquer avanço no ensino dessa matéria; leitura sem ritmo, entonação de voz ou domínio do vocabulário básico torna-se enfadonha e sem graça para os alunos. Sendo assim, como ensinar os conteúdos relativos à História, Geografia ou Ciências? Meus alunos não dominam o mínimo da Língua Escrita. São falantes do Português Oral, mas não são escritores e nem leitores em Língua Portuguesa...
Na prática sobra para o professor descascar esse abacaxi. Volta-se aos primórdios da educação brasileira onde coexistiam numa mesma classe e sob o comando de uma única professora várias séries, ou vários grupos de alunos; tão diferenciados em seus níveis de conhecimento que à professora só restava agrupá-los, na classe, e planejar aulas diferentes para atender às necessidades dos diferentes grupos.
Hoje, vejo-me na mesma situação da professorinha dos anos 30, do século passado. No meu grupo atual de 29 alunos do 6º ano do ensino fundamental, um deles é analfabeto, metade da turma está semi alfabetizada e o restante distribui-se entre os níveis de aprendizagens que vão do 3º ao 6º ano. Somente dois ou três alunos estão prontos para para os estudos específicos do 6º ano de escolarização formal. Os recursos didáticos que tenho à minha disposição atendem somente aos alunos que estão prontos para cursar o 6º ano; no entanto, todos os dias em qualquer das aulas a serem dadas preciso voltar a conteúdos que já deveriam estar consolidados na bagagem de aprendizagens dos alunos. Consequência disso: a aula não rende, pois muito dos conteúdos sequer foram apresentados aos alunos nos seus anos anteriores de estudo.
É comum na turma o texto ilegível, a caligrafia misturada contendo letras maiúsculas no meio da palavra, por exemplo. Na Matemática, o não automatismo dos fatos fundamentais e dos conceitos básicos das quatro operações impedem qualquer avanço no ensino dessa matéria; leitura sem ritmo, entonação de voz ou domínio do vocabulário básico torna-se enfadonha e sem graça para os alunos. Sendo assim, como ensinar os conteúdos relativos à História, Geografia ou Ciências? Meus alunos não dominam o mínimo da Língua Escrita. São falantes do Português Oral, mas não são escritores e nem leitores em Língua Portuguesa...
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Eleição de diretores das Escolas Municipais de BH
Desde 1989 que a Prefeitura de Belo Horizonte delegou à cada Comunidade Escolar do Município a responsabilidade de eleger o diretor e o vice diretor das escolas municipais da cidade.
De lá para cá, algumas mudanças nos critérios dessa escolha foram feitas, porém na essência, até o momento, tudo continua como dantes, com um agravante: as mudanças que se fizeram no processo de escolha dos diretores da Rede Municipal, a meu ver, pioraram o modo de escolha.
Senão, vejamos: 1989 - voto universal da Comunidade Escolar (Pais, alunos acima de 16 anos, professores e funcionários - todos tendo o mesmo peso); inscrição das chapas que poderiam ser formadas desde que seus integrantes tivessem um mínimo de dez anos de serviços prestados na escola onde trabalhavam; campanha eleitoral nos mesmos moldes das campanhas político-partidárias ( distribuição de "santinhos", comícios pela comunidade, debates entre as chapas concorrentes, apresentação de um plano de gestão administrativa e pedagógica e isso tudo e alguma coisa mais tinha início um mês antes da eleição. Duração do mandato de dois anos, permitida uma segunda recondução, por mais dois anos.
O que se tem hoje em matéria de escolha dos dirigentes das escolas municipais de BH?
Candidatos oriundos das próprias escolas; uma semana de "propaganda" das chapas, que consiste em apresentar uma proposta de trabalho "ditada" pela Prefeitura, ou seja, todas as chapas apresentam basicamente o mesmo discurso; não há o debate interno (com os professores e os funcionários das escolas) e nem o externo, com os pais dos alunos; não há o cadastro do votante, basta que ele leve um documento de identidade e que tenha seu nome na listagem de eleitores daquela escola; o voto continua tendo o peso universal, ou seja, há grande possibilidade da chapa ser eleita pelos pais dos alunos e contar com a rejeição dos professores e funcionários da escola, pois o número de pais votantes é infinitamente superior ao dos trabalhadores dos estabelecimentos de ensino.
Teoricamente isso seria ideal, já que todos da escola são "funcionários" dos pais. Porém, vivemos no Brasil e estamos longe de atingir o patamar de interesse do brasileiro pela educação formal que é ministrada nas escolas. A todos, infelizmente, não interessa o ensino de qualidade e sim um lugar para deixar os filhos enquanto os pais trabalham.
Portanto, após uma semana insana, quando tudo aconteceu simultaneamente, (campanha, recuperação paralela, provas sistêmicas do SIMAVE, aulas normais, encerramento do semestre letivo,etc, etc...) eis que temos nova direção para o triênio 2012/2014, renovável por mais três anos consecutivos.
Apesar de tudo, estou otimista. A chapa vencedora da minha escola deverá fazer uma boa administração. Acredito nisso. Então, que venha 2012...
De lá para cá, algumas mudanças nos critérios dessa escolha foram feitas, porém na essência, até o momento, tudo continua como dantes, com um agravante: as mudanças que se fizeram no processo de escolha dos diretores da Rede Municipal, a meu ver, pioraram o modo de escolha.
Senão, vejamos: 1989 - voto universal da Comunidade Escolar (Pais, alunos acima de 16 anos, professores e funcionários - todos tendo o mesmo peso); inscrição das chapas que poderiam ser formadas desde que seus integrantes tivessem um mínimo de dez anos de serviços prestados na escola onde trabalhavam; campanha eleitoral nos mesmos moldes das campanhas político-partidárias ( distribuição de "santinhos", comícios pela comunidade, debates entre as chapas concorrentes, apresentação de um plano de gestão administrativa e pedagógica e isso tudo e alguma coisa mais tinha início um mês antes da eleição. Duração do mandato de dois anos, permitida uma segunda recondução, por mais dois anos.
O que se tem hoje em matéria de escolha dos dirigentes das escolas municipais de BH?
Candidatos oriundos das próprias escolas; uma semana de "propaganda" das chapas, que consiste em apresentar uma proposta de trabalho "ditada" pela Prefeitura, ou seja, todas as chapas apresentam basicamente o mesmo discurso; não há o debate interno (com os professores e os funcionários das escolas) e nem o externo, com os pais dos alunos; não há o cadastro do votante, basta que ele leve um documento de identidade e que tenha seu nome na listagem de eleitores daquela escola; o voto continua tendo o peso universal, ou seja, há grande possibilidade da chapa ser eleita pelos pais dos alunos e contar com a rejeição dos professores e funcionários da escola, pois o número de pais votantes é infinitamente superior ao dos trabalhadores dos estabelecimentos de ensino.
Teoricamente isso seria ideal, já que todos da escola são "funcionários" dos pais. Porém, vivemos no Brasil e estamos longe de atingir o patamar de interesse do brasileiro pela educação formal que é ministrada nas escolas. A todos, infelizmente, não interessa o ensino de qualidade e sim um lugar para deixar os filhos enquanto os pais trabalham.
Portanto, após uma semana insana, quando tudo aconteceu simultaneamente, (campanha, recuperação paralela, provas sistêmicas do SIMAVE, aulas normais, encerramento do semestre letivo,etc, etc...) eis que temos nova direção para o triênio 2012/2014, renovável por mais três anos consecutivos.
Apesar de tudo, estou otimista. A chapa vencedora da minha escola deverá fazer uma boa administração. Acredito nisso. Então, que venha 2012...
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
O Padrão no Caos
Todos os dias, ao chegar em casa do trabalho, ouço do meu marido aquela pergunta clássica: "E aí, tudo bem? Digo a ele que sim, tudo normal. Então ele pensa que o meu dia foi melhor do que o dia anterior. Explico a ele que não! Trabalho sempre no mais absoluto caos: barulho, conversa, dispersão... Os alunos não conseguem focar no que estão fazendo. Conversam e riem e contam casos e brigam uns com os outros e observam o que se passa fora da sala de aula e copiam as atividades do quadro. Um ou outro participa realmente da aula perguntando, dando opiniões ou dizendo o que já sabe sobre o assunto abordado.
Não importa como estejam dispostos na sala: se em grupo, em dupla ou sozinhos. O comportamento é sempre o mesmo. Ignoram-me, conversam uns com os outros, riem muito e alto e, muitas vezes se agridem verbalmente.
Não há conversa sobre o respeito que se deve ter com o outro, o tratamento respeitoso ao colega, aos funcionários, aos professores... Não há combinados que sejam cumpridos ou recursos que capturem o interesse dos alunos durante as aulas.
Numa turma de 28, como a que tenho atualmente, 1/4 é focado, interessado, responsável, 1/4 não sabe o que está fazendo ali e o restante, dança conforme a música: faz quando é exigido, se não o é, não faz; espera o professor implorar para que tire o caderno, abra o livro, leia o texto, dê uma solução razoável ao problema proposto; capriche no raciocínio para a resolução da atividade do momento.
Na fritada dos ovos, saio da sala de aula, invariavelmente, com a sensação de que sobrevivi a mais um dia de caos.
Não importa como estejam dispostos na sala: se em grupo, em dupla ou sozinhos. O comportamento é sempre o mesmo. Ignoram-me, conversam uns com os outros, riem muito e alto e, muitas vezes se agridem verbalmente.
Não há conversa sobre o respeito que se deve ter com o outro, o tratamento respeitoso ao colega, aos funcionários, aos professores... Não há combinados que sejam cumpridos ou recursos que capturem o interesse dos alunos durante as aulas.
Numa turma de 28, como a que tenho atualmente, 1/4 é focado, interessado, responsável, 1/4 não sabe o que está fazendo ali e o restante, dança conforme a música: faz quando é exigido, se não o é, não faz; espera o professor implorar para que tire o caderno, abra o livro, leia o texto, dê uma solução razoável ao problema proposto; capriche no raciocínio para a resolução da atividade do momento.
Na fritada dos ovos, saio da sala de aula, invariavelmente, com a sensação de que sobrevivi a mais um dia de caos.
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