domingo, 7 de agosto de 2011

Ai, que cansaço!

Li na "Veja" de hoje o artigo do pesquisador  e articulista da revista, Gustavo Ioschpe, sobre a " tensa relação entre famílias e escolas". Se bem entendi, o articulista afirma que, dentre outras coisas, os professores das escolas públicas preferem colocar a culpa do mal desempenho dos alunos nos pais do que admitir que o trabalho desenvolvido por eles, professores, nas escolas é que não atinge os objetivos e metas do que deveria ser o  papel da escola: ensinar a ler e a escrever. Diz ainda, literalmente, que "muitos educadores e pedagogos são, na verdade, ativistas sociais em busca de uma causa. Seu objetivo é mudar o mundo, e os alunos são apenas um veículo"...
Sei que o jornalista e pesquisador Gustavo Ioschpe tem desenvolvido um intenso e extenso trabalho de pesquisa sobre o funcionamento das escolas públicas brasileiras com o objetivo de entender e de explicar o por quê do caos pedagógico em que vivemos. Louvo-o por isso. Tão jovem e tão cheio de boas intenções. Porém, penso que não há um único motivo pelo qual até o momento o ensino brasileiro não obteve êxito.  Não há um único culpado pelo fracasso escolar nacional. E, não há por que passar a bola para este ou aquele e achar que tudo se resolve. A bola deverá estar com toda a sociedade ao mesmo tempo. Vivemos, penso eu, um problema de identidade educacional. Desde o Brasil Império que o nosso ensino instituído  não passa de cópia do que se faz em outros países. Copiamos os jesuítas, copiamos os franceses, os ingleses, os americanos, os espanhóis, os portugueses. Até os argentinos nós copiamos. Nunca fizemos, exceto as tentativas de Anísio Teixeira, que também se baseou nas propostas da escola nova, ou, mais recentemente, de Darci Ribeiro, que bebeu na fonte de Anísio Teixeira e noutros modelos internacionais, o projeto pedagógico nacional.
Como já disse acima, nosso ensino sempre foi a cópia, da cópia do que há fora e, pior ainda, com grande defasagem de tempo e conforme as ideologias e partidos políticos de plantão. Cada governo, seja municipal, estadual ou federal procura impor, na educação, a sua ideologia, pois pretende mudar, ou não, a sociedade conforme sua crença via escola , principalmente escola pública. No entanto, para o grosso da sociedade, em matéria pedagógica tanto faz dar na cabeça, quanto debaixo do chapéu; fica o dito pelo não dito e estamos conversados.
Nós professores sofremos todas essas interferências e também não temos uma opinião formada sobre qual é o melhor projeto educacional para o país. Compramos as ideias conforme elas nos chegam. Se estamos nas faculdades, percebemos mal e porcamente o que nos é ensinado; se já estamos atuando, engolimos sem mastigar o que nos impingem como modelo educacional; afinal "manda quem pode e obedece quem tem juízo".
Sendo assim, quando a política educacional é a de "mudar o mundo e os alunos são apenas um veículo" agimos para que isso se dê, se em algum momento o vento virar para ..."transmitir os conhecimento e capacidades intelectuais que darão  ao jovem as condições de exercer plenamente o seu potencial..." será essa a nossa prática. Na verdade, somos empregados do setor público, não temos autonomia de voo; trabalhamos segundo nos ensinam ou nos convencem.
Mas afinal, quem se importa com isso no Brasil? Quando, em que momento a educação e a política foram ou são pautas dos botecos, dos bares, dos salões de beleza, Brasil afora? Quem se preocupa em saber quais são as reais necessidades e dificuldades dos professores ao exercerem o seu trabalho em sala de aula? Quem se importa se o aluno está em condição de plena saúde física e emocional para assistir aulas? Que profissional da suporte ao professor quando este pede socorro, porque não sabe o que fazer ou que atitude tomar em determinada situação? Quem se preocupa, verdadeiramente, com o caos educacional em que nos encontramos? Acho que só o Gustavo Ioschpe, mesmo assim tende a ficar, na maioria das vezes, contra o professor.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Vida Interrompida

A professora Marildes Marinho partiu de forma trágica. Não por escolha, mas por ter sido escolhida sabe-se lá por que motivo. Deixou família, filhos, marido, amigos, alunos e ex-alunos, pesquisa, casa, desejos, planos...
Talvez não tenha sofrido, sequer tenha pressentido a morte iminente. Talvez tenha se preocupado com a situação, com os bandidos, com o marido, mas nada disso importa. Importa, isso sim, a estupidez do fato em si. Sua vida lhe foi roubada e isso é infinitamente mais do que os míseros trocados desejados pelos ladrões. Morrer é natural, faz parte do ciclo e da condição do ser vivo, mas há morte e morte. Há a morte esperada, há a morte inevitável, há até a morte desejada. Porém a morte estúpida, que vem devido a um acidente e mais ainda um acidente que se apresenta em função de uma característica social, de uma ação de violência de um ser humano contra o outro, ah, essa morte é incompreensível, inaceitável, mas cruelmente real e doída, muito doída.
Não conheci a professora Marildes, apenas tive contatos esporádicos com ela e em situações diversas. A primeira delas, eu sendo entrevistada, por uma banca de doutoras da Faculdade de Educação e da qual ela fazia parte. À época, apresentava-lhes o meu projeto de pesquisa, na etapa final em que concorria a uma vaga ao mestrado da FAE/UFMG. Tempos depois, estive com ela numa situação social, em um almoço de aniversário, na casa de amigos comuns. Conversamos sobre escola, educação, prá variar. Ela muito simpática e solícita. Não mais a vi, como era de se esperar, até que no início desta semana fui surpreendida pela notícia de sua morte tão trágica. Que pena!
Vive-se uma vida inteira de estudo, de preocupação social, de esforço para compreender o ser humano na sua cultura, no seu falar, na sua expressão mais profunda... Quanto de estudo e de sabedoria se foi com ela, quanto de pesquisa, de trabalho, de energia, de ideias, de atos, de amizade, de solidariedade, de vida se perdeu nesse ato tresloucado e insano de bandidos para os quais o que interessa mesmo é "quem nós vai pegar, hoje, heim, mano?!... 

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quando o elogio faz a diferença

Trabalho com alunos de idades que variam entre 11/12 e 13 anos. É uma turma bastante heterogênea pois apresenta níveis  diferenciados de leitura/escrita e domínio das habilidades básicas das disciplinas escolares. Apesar de eles estarem no final do 2º ciclo e de eu ser habilitada em Letras, trabalho também os conteúdos de ensino relativos à Matemática, Língua Portuguesa, História, Ciências e Geografia. São três horas e meia de aulas diárias, distribuídas ao longo da semana.
Meus alunos são bastante inquietos e apresentam uma capacidade de concentração estranha pois independentemente do que estejam fazendo, não importa o modo como estão dispostos: em grupo, individual, ouvindo uma explanação ou participando de um debate; assistindo a algum vídeo ou durante as aulas de informática; mantêm, sempre, a atenção focada em mais de um acontecimento.
Conversam o tempo todo entre si, percebem o que se passa com o colega do extremo oposto da sala, registram ou comentam a aula que estiver acontecendo e ainda fazem perguntas "nada a ver" com o momento das atividades.
É comum, em diversas situações, sentir-me transparente junto a eles, sem nenhuma importância, um mero detalhe na sala de aula.
Das muitas atitudes já tomadas para conseguir motivá-los e interessá-los somente pelas aulas, a última delas envolve diretamente os  familiares dos alunos.
Resolvi comunicar-lhes, diariamente, como foi o comportamento do filho durante aquele dia de aula: quem colabora, participa, faz perguntas, tira dúvidas, registra as atividades, esforça-se por aprender e participar . É o bilhete do bem. Só de elogios, para os que os merecerem, bem entendido.
Ah! Tem sido uma maravilha! Acho que percebi como "botar " o ovo de Colombo em pé...

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ser só

O professor é um profissional que não deveria trabalhar tão sozinho quanto o faz ; principalmente aquele que atua no ensino público.
Faço tal afirmativa porque lido constantemente com alunos doentes, em sala de aula. E aluno doente, como qualquer ser humano , não rende tudo aquilo que poderia render.

As escolas municipais de décadas anteriores possuíam uma estrutura física e profissional que previam essa necessidade de apoio multiprofissional ao aluno . Contavam, então, com gabinete dentário, consultório pediátrico e programas específicos de escovação dos dentes, bochechos com flúor, assepcia das cabeças dos alunos com piolhos e até tratamentos em massa contra a verminose.

Isso acontecia periodicamente ao longo do ano letivo. Os alunos, os professores e as famílias contavam ainda com a assistência de psicólogos, orientadores educacionais, supervisores pedagógicos e assistentes sociais.  Todos pertenciam ao quadro da Secretaria Municipal de Educação.

À época, essa política de apoio ao pedagógico das escolas foi taxada pelo Sindicato dos professores e outros ideólogos de plantão de "assistencialista", "paternalista" e tanto fizeram e falaram que conseguiram acabar com ela.

Hoje, estamos sós.

Trabalhamos diariamente com alunos doentes: dor de dente, dor de cabeça, desânimo, apatia, hiperatividade, uso de droga e abandono social são alguns dos problemas com os quais nos deparamos.

Sabemos que tais problemas interferem diretamente no rendimento escolar do aluno e não podemos fazer nada. Assistimos desoladas a tudo isso sem ter a quem recorrer. É... Os tempos são outros...

Quebra galho

Sábado passado realizou-se a "Festa Junina" da minha escola. Após várias discussões ao longo de alguns anos conseguimos o consenso de fazer a festa sem o caráter mercantilista que a caracterizava até então. Simplificou-se, dessa forma, o evento.
Fizemos uma festa junina sem barraquinhas, sem jogos, sem a venda dos típicos "comes e bebes" .
Tudo isso para não onerar as famílias dos alunos que, nos anos anteriores, abasteciam as barraquinhas com as prendas dos jogos, doavam os produtos dos alimentos que eram vendidos, (comidas e bebidas) vendiam rifas para o concurso do "Rei do Amendoim" e da "Rainha da Pipoca", doavam os produtos da gincana, que acontecia todos os dias, até o momento da festa, e ainda, para participar das brincadeiras das barraquinhas, pagavam pelas fichas.
Simplificada, a festa virou uma apresentação de números de danças: as típicas quadrilhas e outras  como sertanejo, pancadão, americana...
O mais impressionante disso tudo foi o fato de as professoras terem ensaiado os alunos das danças de cada ritmo, sem som! Não ficou pronto, estava no conserto e então... Ensaiem sem música!
Metade dos meus alunos se dispôs a participar das danças; saíram da sala a semana inteirinha para ensaiar. E no dia da festa, o que fizeram? Não compareceram...
No entanto, por incrível que pareça, no momento das apresentações a escola estava linda, toda enfeitada, colorida, alegre.
Os pais compareceram e se mostraram felizes; foi servida a eles uma deliciosa canjica e os alunos, os que compareceram, dançaram até bem, dadas as circunstâncias dos ensaios.
Conclusão: escola funciona com muito pouco; milagrosamente, no meio do caos há aprendizagens significativas...
Imagina, então, se tivéssemos horários de estudos e planejamentos; estrutura física de teatro, quadra de esportes; professores de dança e de canto; diretores de teatro; sala de arte, sala de vídeo e/ou multimeios além de tudo o que já existe? Seríamos páreo duro para a Finlândia, Coreia do Sul e outros "bambas" do teste do "PISA".  Tenho certeza disso.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Quando Tudo Dá Certo

Hoje fiz uma reunião com os pais dos meus alunos que me deixou realizada! Pela primeira vez, após 16 anos de magistério, alcancei quase 100% das presenças dos pais, durante a reunião.
Pais e filhos juntos, no mesmo ambiente.
A ideia foi a de fazer do encontro um momento de alegria, de comemoração dos sucessos... Deixei de lado as lamúrias, as reclamações a respeito dos alunos indisciplinados, o destaque dos alunos que não se saíram bem nas avaliações trimestrais, deixei de lado o gasto de energia com o aluno que ainda não compreendeu por que se vai à escola...
Resolvi premiar os alunos responsáveis, com medalhas de "Honra ao Mérito". Ao todo 13 alunos receberam-nas.
Seus pais ficaram surpresos e orgulhosos ao mesmo tempo.
Relatei todo o processo desenvolvido em sala de aula com os alunos, desde o mês de fevereiro. Expus os projetos desenvolvidos com o objetivo de criar vínculos afetivos entre os alunos; criar responsabilidades quanto aos estudos; criar o espírito colaborador entre todos durante as aulas.
Os resultados estão aparecendo e são muito bons. Estou orgulhosa de mim mesma e de meus alunos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Professora Guerreira

Parabéns, Amanda! Você lavou a nossa alma! Segura, objetiva, sintética e irrefutável. Em poucos minutos você descreveu o nosso caos. No momento certo, para as pessoas certas você conseguiu a síntese dos 511 anos de problemas educacionais vivenciados por nós professores e ignorados por todos, sem exceção.
Num momento importante, quando a Educação está na pauta da grande mídia nacional você conquistou um espaço de fala jamais sonhado pelo mais otimista dos otimistas defensores do ensino público e/ou privado do país.
Penso que enquanto não conseguirmos que o tema educação seja "banalizado" no bom sentido, caindo na boca do povo, na conversa do bar, do salão de beleza, das ruas, não encontraremos as saídas´para esse impasse que é o nosso ensino fundamental, médio, superior, técnico e pós, pós, pós...
Precisamos inventar um sistema de ensino que tenha a nossa cara; que nos represente no que somos e no que temos de cultura, de demanda social, de ideais políticos e filosóficos.
Precisamos inventar o nosso jeito de ensinar; a nossa metodologia, o nosso currículo sem que estes sejam cópias da última moda vinda de fora.
Até o momento, desde o Brasil Colônia, copiamos os sistemas de ensino dos outros;macaqueamos suas metodologias, imitamos seus currículos e não persistimos em nada. É por isso que nada deu certo até agora.
Salário correspondente ao de outros profissionais com formação superior; escolas funcionais e equipadas; professores em tempo integral em cada unidade de ensino do país - com tempo de regência e tempo de estudo e de planejamento remunerados e na mesma escola; currículo mais enxuto, objetivo e adequado à cada faixa etária do alunado brasileiro já seria um bom começo de caminho.
Dez por cento do PIB nacional carreados para a manutenção desse sistema nacional de ensino e toda a sociedade mobilizada em prol da educação em todos os níveis  - do Infantil ao Superior.
Isso é utópico?! É sonho?!
Penso que não. Isso é perfeitamente possível e você, Amanda, já deu o ponta pé inicial.
Agora é bola prá frente. Vamos fazer esse gol...